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PORTFÓLIO-O novo equilíbrio do Ibovespa: 50 mil pontos
PORTFÓLIO-O novo equilíbrio do Ibovespa: 50 mil pontos
SÃO PAULO - O índice Bovespa caiu mais de 30 por
cento entre seu ponto máximo no fim de maio e o meio-dia desta
sexta-feira. No pior momento do dia, o principal indicador do
mercado acionário brasileiro rondou o "nível psicológico" de 50
000 pontos. E, para mais de um especialista, esse deve ser o
novo ponto de equilíbrio do mercado acionário por bastante
tempo.
As principais casas bancárias que divulgam seus
prognósticos sobre o mercado acionário ainda não admitiram esse
novo cenário, pelo menos oficialmente. Mesmo assim, os melhores
profissionais de tesouraria estão convencidos de que o mercado
deverá permanecer nesse patamar por um bom tempo.
Há apenas três meses, os mais otimistas chegavam a prever
um índice Bovespa rondando 80 000 pontos no fim de 2008, e
chegando aos 100 000 pontos em algum momento do ano que vem.
Como explicar uma reversão tão grande de expectativas em tão
pouco tempo?
Há três razões para isso. A primeira, mais importante e
significativa, é também a mais simples. Os investidores
internacionais estão resgatando dinheiro aos borbotões de suas
aplicações em países emergentes como o Brasil.
Segundo um levantamento da consultoria Emerging Portfólio
Fund Research (EPFR), os resgates desde o início do ano somam
25 bilhões de dólares, o equivalente aos investimentos de todo
o ano de 2006. Sem o suporte desse capital, as ações caem.
A segunda razão é que a saída do capital internacional é
diferente dos resgates registrados nos últimos tempos. Agora,
as perspectivas para o retorno dos fluxos internacionais também
são ruins.
Ao longo dos últimos cinco anos, a bolsa brasileira sofreu
com movimentos periódicos dos investidores internacionais. Em
momentos de crise nos países emergentes, esses investidores
resgatavam seu dinheiro em movimentos de fuga para ativos sem
risco, o conhecido "fly to quality", para, logo em seguida,
voltar em busca de preços baixos e rentabilidades apetitosas.
Hoje, a dinâmica desse movimento mudou. O dinheiro
resgatado saiu por necessidade de cobrir perdas com ativos e
derivativos de crédito no mercado norte-americano, e não por
uma opção estratégica de reduzir riscos. Ou seja, é um dinheiro
que voltou aos seus países de origem para ficar
indefinidamente.
A terceira razão é que a desaceleração da economia
norte-americana, cada vez mais explícita nos indicadores,
deverá ter reflexos muito profundos sobre o principal parceiro
comercial em potencial do Brasil, a China.
Essa razão requer uma explicação um pouco mais técnica.
Mais da metade das ações negociadas na Bolsa brasileira têm uma
correlação elevada com os preços internacionais das commodities
--basta pensar em Petrobras, na Vale do Rio Doce e nas
siderúrgicas, só para ficarmos nos exemplos mais evidentes.
Quando se fala em demanda por commodities como minério de
ferro, as estimativas dependem basicamente de quanto o mercado
imagina que a economia chinesa vai consumir. Estados Unidos em
desaceleração querem dizer China vendendo menos produtos
industrializados e demandando menos commodities, com reflexos
ruins para empresas que representam metade da bolsa brasileira.
Há mais. A outra metade da bolsa, que destina-se
basicamente ao mercado interno e depende menos da oscilação dos
preços das commodities, também tem seus problemas.
Uma parte importante dessa parcela são os bancos. Apesar de
a solidez do sistema financeiro brasileiro ser várias ordens de
grandeza maior do que a dos concorrentes norte-americanos, a
palavra "banco" ainda assustando os investidores.
Outro setor importante na economia, o de construção civil,
está mal representado no mercado.
Há um excesso de empresas listadas na bolsa, não há capital
para todos e a perspectiva de uma consolidação sem a concessão
de benefícios para os minoritários como a participação no
prêmio pago pelo controle, conhecida como "tag-along", reduz o
interesse em quem quer comprar essas ações de olho nos ganhos
não-recorrentes dos eventos societários.
Moral da história: não é hora de entrar na bolsa em busca
de ações baratas. O Ibovespa ao redor de 50 000 pontos veio
para ficar por um bom tempo.
* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio
para a Reuters; as opiniões expressas são de sua
responsabilidade.
Fonte:http://www.estadao.com.br/economia/not_eco236985,0.htm
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