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Crise do Canal de Suez fez de Nasser um ícone árabe


Quando nacionalizou a Companhia do Canal de Suez no dia 26 de julho de 1956, o presidente do Egito Gamal Abdel Nasser tornou-se o herói do mundo árabe



CAIRO - Gamal Abdel Nasser era um dos oficiais do Exército que participaram, em 1952, do golpe que tirou do poder a monarquia apoiada pelos britânicos. A resposta árabe ao novo regime militar, escreve o historiador Rashid Khalidi, foi morna inicialmente. "Suez mudou isso, estabelecendo Nasser como o líder árabe supremo até o fim de sua vida, e o nacionalismo árabe como a principal ideologia árabe."

Tomar o controle do canal foi um ato de auto-afirmação nacional e de desafio à Grã-Bretanha, que empolgou árabes por toda parte. Nasser foi visto como um novo tipo de líder, pronto para desafiar a velha ordem colonial.

Canal de Suez

O canal de 163 quilômetros ligando o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho foi construído entre 1859 e 1869 e no fim dos trabalhos - que custaram as vidas de 125 mil egípcios, principalmente por causa da cólera - era propriedade de Egito e França.

O Canal de Suez sempre teve importância estratégica porque permitia que embarcações fossem da Europa à Ásia sem ter de contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança.

A dívida externa do Egito forçou o país a vender sua parte do canal à Grã-Bretanha. Tropas britânicas se instalaram na região em 1882 para proteger a nova propriedade.

Crise

A crise do Canal de Suez foi provocada pela decisão de Estados Unidos e Grã-Bretanha de não financiar a construção da Barragem de Aswan, como haviam prometido, em razão da aproximação do Egito aos países comunistas União Soviética e Tchecoslováquia.

Nasser reagiu à decisão declarando lei marcial na região do canal e tomando o controle da Companhia do Canal de Suez, acreditando que o pedágio recolhido com a passagem de navios pelo canal financiaria a construção da represa em cinco anos. Grã-Bretanha e França temiam que Nasser fechasse o canal e cortasse o fornecimento de petróleo do Golfo Pérsico para a Europa.

Quando esforços diplomáticos para resolver a crise falharam, os dois países - aliados a Israel - planejaram uma ação militar de surpresa para retomar o controle do canal e, se possível, depor Nasser. Forças israelenses entraram no Egito em outubro de 1956 enquanto tropas francesas e britânicas chegaram aos portos egípcios em novembro.

A campanha militar enfrentou forte oposição na Grã-Bretanha e na França, além de sofrer a ameaça constante de intervenção das Nações Unidas e da União Soviética. Em dezembro, forças da ONU evacuaram as tropas européias e as forças israelenses saíram da região em março de 1957, numa retirada humilhante. Na época em que a crise de Suez havia seguido seu curso, o poder regional de Nasser havia se tornado inexpugnável.

´Arabismo´

O nacionalismo árabe, ou ´arabismo´, incorporava a idéia de que todos os árabes, do Marrocos até o Golfo, deveriam se unir em um só país. Era uma ilusão, mas uma ilusão muito forte. Durante o auge do poder de Nasser, nos anos 50 e 60, a idéia de que os árabes deveriam se unir sob a liderança do Egito tornou-se muito popular.

Usando o rádio portátil como meio de comunicação, Nasser espalhou a mensagem arabista pelos cantos mais remotos da região. Líderes marcados por sua ligação com os antigos poderes coloniais viram sua influência seriamente enfraquecida. Dois anos após o caso Suez, a monarquia iraquiana, apoiada pelos britânicos, caiu num golpe sangrento.

Isso foi um forte sinal de que os nacionalistas árabes estavam agora tomando as decisões. Com a ascensão de Nasser, três idéias passaram a dominar a política árabe: o arabismo, a justiça social e a luta contra Israel.

Alinhando-se com Grã-Bretanha e França na questão do Canal de Suez, Israel confirmou a visão árabe que via o país como uma criação do colonialismo. A luta contra Israel tornou-se a causa árabe predominante, mas acabou contribuindo, no fim, para a ruína de Nasser.

Alguns analistas acreditam que seu sucesso em 1956 o levou a superestimar seu poder na guerra de 1967. O líder egípcio achou que os países poderosos viriam resgatá-lo, como os Estados Unidos haviam feito em 1956.

Em vez disso, Israel derrotou os exércitos árabes em apenas seis dias. Desgastado por uma sucessão de crises regionais, Nasser morreu de um ataque cardíaco em 1970. Para muitos árabes, a luz do arabismo havia sido extinta.



Fonte:http://www.estadao.com.br/ultimas/mundo/noticias/2006/jul/26/16.htm?RSS

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