“И жизнь хороша и жить хорошо,,
- "Tanto a vida é boa quanto viver é bom."Vencer concurso leva uma peça ao palco? As respostas são tão diversas quanto os textos premiados. "Para mim, abriu caminho", diz Carlos Correia Santos, de Belém. "Em 2003, ter sido aprovado por um júri especializado serviu como selo de qualidade. Afinal, não existe crítica para um dramaturgo iniciante, não encenado", argumenta. No seu caso, logo após o concurso foi procurado por um grupo interessado em encenar Biblioteca Mabu. A partir daí, vieram outros prêmios, outras montagens, e ele não mais parou.
Mas até agora a história é outra para Edivaldo da Silva, de Brasília, 1.º lugar na categoria adulto, região Centro-Oeste, no Concurso da Funarte de 2005, com Laura. "Para quem está iniciando ajuda porque dá visibilidade e credibilidade, mas o principal é a montagem, senão é prêmio de literatura", diz. "E aí não depende só de interesse, mas das dificuldades de produção impostas pelo texto. No meu caso, há quem queira encenar, mas não se conseguiu levantar a produção", diz Edivaldo.
Com quatro peças encenadas, Sérgio Roveri, 1.º lugar na Funarte em 2005 por Com Vista para Dentro, pensa de forma semelhante. "Ter sido selecionado é um grande estímulo, mas a montagem (estréia dia 28 em São Paulo) depende de outros fatores que vão do elenco ao interesse de um diretor." A publicação do texto por si só - e isso os concursos fazem -, num país de dimensões continentais, não amplia o leque dos interessados? Mais um vez, as respostas variam entre sim e não.
"Há uma diferença entre impressão e publicação", observa Marcos Barbosa, autor experiente e de sólida formação cultural. "Os concursos imprimem as peças, mas a circulação e a divulgação são muito restritas", diz ele, que tem vários textos encenados no Brasil e no exterior. Mas há quem pense diferentemente dele, até dentro de casa. Sua mulher, Cláudia Barral, fala com entusiasmo das conseqüências de ter ficado em 3º lugar na Funarte, em 2003, com a peça Cordel do Amor sem Fim. "Recebi propostas de trabalho e o texto teve leitura dramática na Bahia e no CCBB de São Paulo, sob direção de Francisco Medeiros.
Processo de escolha
Naldo Alves, gaúcho radicado no Rio, é médico, ator, diretor, e atualmente dedica-se a criar programas educativos institucionais. Foi o 1º colocado em 1988 no Concurso Carlos Carvalho com Tortura não É Brinquedo, peça encenada em Porto Alegre e no Paraguai, esta última porque o livro bateu nas mãos da diretora Erenia López em uma viagem por Porto Alegre. "Foi por acaso mesmo", diz Naldo. Ainda assim, há o outro lado dessa moeda. "A publicação é ótima, claro, mas já flagrei duas montagens no interior sem autorização e quase suspendi uma de Vestir o Pai feita numa escola de São Paulo", diz o paulista Mário Viana. "Não é pelo dinheiro, mas por respeito e ética", diz.
Se há um ponto onde todos convergem é a lisura no processo de escolha. Nos dois concursos em foco, salta aos olhos a mistura extrema entre autores experientes e iniciantes. O paulista Dagomir Marquezi, de 53 anos, por exemplo, conseguiu a proeza de tirar o 1.º lugar no concurso da Funarte na categoria adulto em 2004, na concorrida região Sudeste, com a peça Intervalo. "Não tenho nenhum conhecimento nessa área de teatro o que prova não ser um concurso viciado", diz. "Eu estava cansado de fazer roteiros e projetos para cinema que não davam em nada e resolvi escrever uma peça sem muita esperança. Ganhei!" A trama transcorre durante as gravações de uma novela. "É entretenimento, sem outra ambição. Tem produtor interessado no Rio, mas ainda não há nada de concreto."
O gaúcho Gabriel Camargo, 1º lugar na região Sul no concurso da Funarte de 2005, com a peça A Ufania do Pecado, é psiquiatra e aproveitou o prêmio para editar seu primeiro romance. Paulista de Penápolis radicado em Florianópolis, Carlos Eduardo Silva, de 46 anos, tem um respeitável currículo como maquiador de teatro. E ainda três textos teatrais premiados, entre eles A Filha da..., selecionado pelo MinC em 2000 e dois anos depois encenado no Rio com Marília Pêra no elenco. Quem freqüenta o Centro Cultural São Paulo conhece o atento funcionário Paulo Jordão. Pois ele tem mais de um texto premiado nenhum ainda encenado profissionalmente, entre eles Corrida ao Caos, 3º lugar no Carlos Carvalho em 2002. "Acho o concurso importante, porque alguém pode ler e se interessar, como Elis Regina fazia com novos compositores", sugere Jordão.
Evidentemente, a dramaturgia não é feita só de gênios - eles são raros, um a cada século, e em geral são assim avaliados depois de sua morte. Nenhum país do mundo possui uma cena vital sem bons dramaturgos que a alimentem no dia-a-dia. No Brasil, eles existem e não apenas nos grandes centros, foi a feliz constatação desta reportagem. E suas obras circulam. O diretor carioca Amir Haddad já montou peças do cearense Mapurunga. Textos de Mário Viana foram montados em Fortaleza e no Recife. Todos esses autores têm peças de indubitável qualidade, como De Braços Cruzados, do cearense Emmanuel Nogueira, cuja poética remete a autores nordestinos de reconhecido talento, como Gero Camilo e Newton Moreno. Em conjunto, esses dramaturgos refletem a riqueza cultural deste País, com obras que mereciam intercâmbio mais intenso, e constante.
Fonte:http://www.estadao.com.br/arteelazer/teatro/noticias/2007/fev/13/136.htm?RSS
Outras notícias (canal: Últimas Notícias):